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CANSADO DE VIVER: Aos 104, cientista se prepara para suicídio assistido na Suíça

Publicada em 10/05/18 as 09:09h por CAMILA APPEL, FOLHAPRESS


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 Cientista inglês David Goodall - Divulgação


Aos 104, o cientista inglês David Goodall se prepara para realizar seu suicídio assistido nessa quinta-feira (10) em Basel, na Suíça. Goodall não tem nenhuma doença terminal. Diz apenas que já viveu demais. "Eu não estou feliz, eu quero morrer. Isso não é particularmente triste. O triste é uma pessoa ser impedida disso", falou em entrevista à Australian Broadcasting Corporation. E talvez por isso seu caso tenha chamado tanto a atenção da mídia internacional.

Goodall é um reconhecido ecologista e botânico, pesquisador da Universidade de Edith Cowan, na Austrália, país onde reside desde criança. Em 2016, recebeu a prestigiada medalha Ordem da Austrália. À CNN, Goodall afirmou esperar que seu caso sirva de exemplo e estimule a legalização do suicídio assistido em outros países.

Amigos e familiares indicam que sua decisão está associada a não conseguir suportar a constante diminuição da independência com que estava acostumado a viver. Um fato determinante teria sido a perda de sua carteira de motorista, em 1998.


Carol O´Neill, amiga do cientista que o acompanha na Suíça, disse em entrevista à BBC que o Goodall se entristeceu ao ser obrigado a mudar seu escritório para um local perto de sua casa, já que a universidade onde trabalha é distante, o que levou a um afastamento dos amigos com quem convivia todos os dias.

A Austrália, assim como o Brasil, não permite o suicídio assistido nem a eutanásia, por isso ele foi buscar essa alternativa na Suíça.

A Suíça não permite a eutanásia. Isso significa que o solicitante precisa estar apto a se automedicar, a realizar um suicídio assistido, como é o caso de Goodall, e o que impossibilitaria o processo a portadores de doenças degenerativas, como ELA (esclerose lateral amiotrófica), em estágio avançado.

O país permite o suicídio assistido desde 1942, o que já rendeu ao país o apelido de "turismo da morte". Essa imagem tem se deslocado para o reconhecimento de uma cultura que permite autonomia no processo de fim de vida, conforme outros países passaram a regulamentar nesse sentido, como o Japão, os Estados Unidos, Bélgica e Holanda.

LEGISLAÇÃO

Nos Estados Unidos, oito estados já oferecem regulamentações amparadas pelo "Death and Dignity Act" (lei de morte e dignidade, em tradução livre), como Oregon, Washington, Califórnia, Colorado e Havaí, com algumas diferenças entre si. Alguns estados permitem a eutanásia, outros, apenas o suicídio assistido.

Nos Estados Unidos, há uma opção incomum: a de levar a prescrição da dose para casa, decidindo, assim, o melhor momento e local para tomá-la. Os relatos descrevem famílias reunidas ao redor da cama da pessoa, em um ritual íntimo.

A Holanda e a Bélgica possuem uma legislação mais abrangente e, também mais polêmica, ao permitirem o suicídio assistido devido a distúrbios mentais. Uma decisão colocada como uma ferramenta de prevenção do suicídio tradicional, já que muitos solicitantes desistem da ação após seu consentimento final, que pode demorar cerca de três anos.

A maioria dos países que preveem esse tipo de regulamentação coloca como condição a existência de uma doença em fase terminal, e chegam a definir um prognóstico de vida de seis meses, abrindo espaço para polêmicas, já que o prognóstico não é uma ciência exata. O estado australiano de Victoria, regulamentou uma lei nesse sentido, prevista para entrar em vigor em 2019.

Goodall não tem uma doença terminal, mas afirma não poder mais viver com as limitações impostas pela idade avançada. A lei Suíça não coloca a doença terminal como condição. Esse cientista prevê realizar, nessa quinta-feira (10), o suicídio assistido na organização LifeCircle. Ainda há três organizações reconhecidas na Suíça, a Dignitas, a Exit -que só atende residentes suíços-, e a Exit Internacional.

A advogada especializada em testamento vital Luciana Dadalto está em Basel e foi conhecer a LifeCircle. Em outra ocasião, ela também esteve na Dignitas. Ela relata que o cientista já se encontra em Basel, onde aguardará seu procedimento, previsto para o próximo dia 10.

PROCEDIMENTO

O remédio utilizado será o sedativo pentobarbital sódico que interrompe o batimento cardíaco quando ministrado em altas doses. A pessoa adormece em segundos, até seu coração parar. É como se morresse dormindo. O procedimento ocorre em um dos quartos da organização, que conta com uma cama, sofá, estante, mesa e poltronas.

Dadalto diz que, para o solicitante receber a permissão para o procedimento, ele deve ser um membro da organização, passar por entrevistas médicas que irão compor sua biografia e indicar a presença ou não de depressão. Caso o paciente esteja deprimido, seu pedido será negado.

Caso seja aprovado, ele fará parte da fundação Eternal Spirit, que passa a cuidar do procedimento em si, por questões fiscais e tributárias. O solicitante deve chegar dois dias antes do dia marcado e fará consultas em cada um deles. O custo total é de, aproximadamente, 10 mil francos suíços.

A fundação oferece opções para quem não tem recursos financeiros. Dos 175 suicídios assistidos realizados entre 2012 e 2015, a grande maioria, 115, foram mulheres, e a faixa etária predominante é de 60 a 89 anos.

A LifeCircle opta por realizar uma infusão do remédio, porque o gosto é muito ruim e pode causar vômitos. Na Dignitas, a substância é ingerida e não infusionada. Goodall, por exemplo, não foi aceito na Dignitas porque não estava em situação de terminalidade ou incurabilidade. Como a lei suíça não é clara nesse aspecto, a LifeCircle interpreta-a a favor de qualquer pessoa que deseje morrer, independentemente de estar doente.

Eles já tiveram outros casos, de pessoas inclusive mais jovens. Dadalto afirma que o suicídio assistido propriamente dito é mais simples na Dignitas porque não é necessário filmar o processo e não necessitam de um médico no momento. Os pacientes são acompanhados pelos voluntários da Dignitas.

"A Suíça está em um patamar diferente no que diz respeito à autonomia para morrer. A nova fronteira de discussão é exatamente a desnecessidade de que a pessoa tenha algum diagnóstico."

A advogada ainda ressalta a divisão de opiniões sobre o caso. "O suicídio assistido de Goodall não é uma unanimidade na Suíça. Encontrar médicos que atestem que a decrepitude da saúde de David e que prescrevam o pentobarbital foi um tarefa difícil, recusada, inclusive, pela Dignitas. Mas aceita pela LifeCircle também por questões ideológicas, afinal, um caso famoso ajuda no debate internacional. Ao contrário do que parece, a morte assistida por uma organização suíça não é uma opção fácil, especialmente para o estrangeiro."

"Há que se respeitar alguns critérios e enfrentar as diferenças de procedimento entre as organizações. Morrer fora de seu país é um ato de desespero e, muitas vezes, de desumanização. Outro idioma, outra cultura e em casos famosos como o Goodall, a curiosidade da opinião pública".

NO BRASIL

A eutanásia e o suicídio assistido são proibidos no Brasil. Atualmente, o país está discutindo a autonomia do paciente para expressar sua vontade em fim de vida, por meio do testamento vital.

O Conselho Federal de Medicina reconheceu a legitimidade desse documento na resolução 1.995 em vigor desde 2012, amparado pelo Código de Ética Médica, que diz: "nas situações irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos e diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciar aos pacientes sob sua atenção os cuidados paliativos apropriados". O que já é um passo contra a distanásia, como é chamado o processo de prolongamento da vida a qualquer custo.

"Ainda há muita dificuldade em cumprir a vontade do paciente, porque a cultura brasileira transfere essas decisões para a família ou para a equipe de saúde. Já o testamento vital reconhece que essa vontade é apenas do paciente", diz  Luciana Dadalto

Ela também diz ser necessário esclarecer que testamento vital não se assemelha a eutanásia ou o suicídio assistido. "O testamento vital é o documento pelo qual o paciente expressar procedimentos médicos aos quais deseja ou não ser submetido, como ressuscitação, respiração e alimentação artificial. No Brasil, o documento não pode conter pedido de eutanásia ou de suicídio assistido, pois essas práticas são ilegais."

A discussão de leis que regulamentem a eutanásia e o suicídio no Brasil ainda é incipiente. O país já foi considerado um local ruim para se morrer, de acordo com um ranking da revista  "The Economist", que fez um levantamento da rede de cuidados paliativos mundo afora.

Trata-se de uma área da medicina que busca melhorar a qualidade da morte. A paliativista Ana Claudia Arantes afirma: "só deseja morrer quem está mal amparado". Frase que condiz com o conceito de pallium, manto protetor em latim, que originou o termo paliativo.



Entendo que antes de discutirmos a legalização da eutanásia e do suicídio assistido no Brasil precisamos primeiro discutir o acesso a cuidados paliativos para todos os indivíduos, pois para que a pessoa opte por uma dessas práticas é preciso que ela esteja bem assistida pelo sistema de saúde, inclusive quanto ao controle de sintomas.

Do contrário, teremos eutanásias e suicídios assistidos apenas porque o paciente não está sendo bem cuidado e que, diante da dor não tratada, opta por isso. É importante deixar claro que nos países que já legalizaram o suicídio assistido e/ou eutanásia, há acesso aos cuidados paliativos", diz Dadalto.










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